Explicações que não explicam - Israel Belo de Azevedo


Quando precisarmos consolar, precisaremos dizer palavras que venham de Deus e não de nós mesmos, como o demonstra um episódio recente.
Viajavam dois casais de namorados num carro, conduzido por um dos rapazes, quando houve um acidente que fez sangrar corações. As duas moças morreram. 
Uma das explicações foi que, no dia do acidente, Deus tinha marcado um encontro com a jovem. Outra foi que os rapazes foram poupados porque Deus tinha um plano nas suas vidas.
Então, com toda a razão, alguém protestou: "E quanto às meninas, não existia plano?"
Responder a este desabafo é um enorme desafio. Não é resposta que possa ser dada sem oração. Não é resposta que nasça apenas do nosso coração. Precisamos conhecer a Palavra de Deus e responder com esta Palavra.
Quando Jesus estava diante de uma experiência de dor, ele se envolvia e seu envolvimento não incluía a explicação. A Bíblia não explica o sofrimento. Devemos ser cuidadosos com nossas explicações, muitas vezes simplistas e muitas vezes trazendo mais culpa aos que já sofrem. Devemos ter a humildade de dizer que não sabemos porque a tragédia aconteceu e deixar as pessoas chorarem, chorando juntos, se for o caso.
Quando Jesus sentiu sua própria dor, Ele sofreu, experimentando inclusive a solidão. Até nisto Ele é nosso mestre. Ao seu lado, muitos tentaram explicar sua morte. E explicaram, embora não entendessem absolutamente nada. Bem teriam feito se se calassem.
A única explicação para a dor é a solidariedade, manifestada no silêncio e também na palavra, no gesto direto e também no gesto indireto (aquele de discreta presença).
E quando formos falar, se for necessário, venham as nossas palavras da Palavra de Deus, como esta de Paulo na segunda aos Tessalonicenses, quando o apóstolo nos abençoa assim: "Ora, nosso Senhor Jesus Cristo mesmo e Deus, o nosso Pai, que nos amou e nos deu eterna consolação e boa esperança, pela graça, consolem o vosso coração e vos confirmem em toda boa obra e boa palavra" (2Tessalonicenses 2.16-17).
Paremos de explicar o que não tem explicação.

Por que falar, se devemos chorar?

Por que propor palavras, se as lágrimas são o melhor que podemos dar?
Por que esboçar explicações, se a compaixão é o sentimento certo a externar?
Por que apresentar acusações, se a misericórdia é a única atitude capaz de confortar?

Diante de uma tragédia, que asfixia amores e sepulta sonhos, deixa dores e transmite temores, só temos uma coisa a fazer: pegar no colo as crianças que perderam os braços que as carregavam, tomar pela mão as mãos (algumas feridas pelas enxadas que sustentavam orgulhosos seus meninos) dos pais órfãos de filhos e enxugar suas lágrimas, beijar os rostos das mães que perderam seus melhores bens e pedir que Deus as conforte, abraçar os irmãos de quem se foram seus companheiros para ser um pouco amigos deles agora, sustentar os avós cujos corpos cambaleiam sem acreditar no horror que os seus olhos veem.

É tempo de silêncio, mas não apenas de um minuto.
É tempo de solidariedade, regada a choro.
É tempo de saudade para aqueles que conviveram com os derrotados pelo fogo e também para cada um de nós, saudade em todos nós.