A metade do corpo - Gregorio Duvivier





A viagem foi insuportável. Viajar de avião é uma sucessão de filas: fila do check-in, fila do embarque, fila do desembarque, fila da imigração, fila do táxi. Hoje em dia, pra piorar, você pega um ônibus da sala de embarque até o avião.

Eles não entendem que se você viaja de avião é exatamente porque você não queria pegar um ônibus? A comida do avião, nem precisa dizer, era odienta. Nova York estava um gelo. As ruas são cheias de brasileiro e kombis de cachorro-quente. Parece Osasco. Só que nevando.

Os taxistas são todos paquistaneses ou afegãos e falam inglês pior que você. Passam a viagem falando no celular -em paquistanês ou afegão. E, no final, você tem que dar gorjeta.

No bar é a mesma coisa. A cerveja é quente, amarga, sem colarinho e custa uns 20 reais.

Fora a gorjeta. Voltamos de metrô, que tem um cheiro de cachorro com notas de rato, urina e ovo podre. A única coisa boa é que a viagem foi com a minha esposa. Ela se diverte com qualquer coisa.

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A viagem foi uma delícia. Pra começar, viajamos de avião -podia ser de navio, que seria uma opção muito mais demorada.

Como a gente tá acostumado a andar de busão, o pessoal do aeroporto levou a gente num ônibus até o avião, pra transição entre os meios de transporte ser mais amigável.

No avião, linda surpresa: a TAM ainda serve comida! E vinho e sobremesa. Foi um festim.

Chegamos em Nova York. E estava nevando! Foi muito bom pra gente que queria fugir do calor de São Paulo. E quando a gente sentia falta de casa, era só ir ao Times Square. Só tinha brasileiros. E kombis de comida!

Parece a rua lá de casa. Só que nevando! Pegar táxi é uma experiência antropológica. Cada táxi que você entra é uma imersão em uma cultura distante. A trilha sonora não poderia ser melhor: o taxista dirige, invariavelmente, falando ao celular em línguas que você nunca ouviu antes.

Fomos a um bar delicioso, que teve a ideia brilhante de servir a cerveja um pouco mais quente pra contrabalançar o frio que estava lá fora. E sem o colarinho, que é um desperdício de cerveja. E a cerveja tem gosto, ao contrário das brasucas.

Valeu cada centavo. Na volta, pegamos um metrô. Isso é surreal: eles têm metrô! E funciona até tarde. E passa na cidade toda. E o cheirinho me lembrou do Jorge, nosso bassê.

Quase chorei de saudade. Não sei se o meu marido gostou. Acho que ele preferia ter ido sozinho.




Gigantes do passado, hoje apenas gigantes em poder - Caio Fábio D'Araújo Filho



Antes do Dilúvio o que se diz é que “filhos de Deus”, os Benai Elohim, possuíram “as filhas dos homens, dentre elas as mais belas [ou fortes], conforme melhor lhes pareceu; vindo daí os gigantes do passado; ou, ainda: “Os varões poderosos que dominaram o mundo antigo”.
Leia:
"Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antigüidade." Gênesis 6.4


Veio o Dilúvio com o fim de acabar com a “hibridização” que os Benai Elohim haviam realizado na Terra, não apenas com humanos, mas também fazendo experimentos que mudaram a natureza de todo ser vivente.
Porém, apesar do Dilúvio, aparentemente os Gigantes, ou seus descendentes enfraquecidos, sobreviveram; sendo prova disso a constatação bíblica de que os descendentes dos Nephilins, os gigantes do Genesis, continuavam presentes na terra de Canaã, bem como no mundo todo.
Flavius Josephus, historiador judeu que escreveu alguns dos textos de história mais importantes do mundo Ocidental, nos diz que os Gigantes do Genesis equivaliam aos Titãs dos Gregos, ou aos deuses dos Egípcios.
Na seqüência das leituras bíblicas se lê o seguinte:

"Antes haviam habitado nela [na terra] os emins, povo grande e numeroso, e alto como os anaquins; eles também são considerados refains como osanaquins; mas os moabitas lhes chamam emins." Deuteronômio 2.10-11

 “Porque só Ogue, rei de Basã [Colinas de Golã], ficou de resto dos refains; eis que o seu leito, um leito de ferro, não está porventura em Rabá dos amonitas? O seu comprimento é de nove côvados [4 metros], e de quatro côvados [1,78 metros] a sua largura, segundo o côvado em uso."Deuteronômio 3.11

 “Também vimos ali os nefilins, isto é, os filhos de Anaque, que são descendentes dos nefilins; éramos aos nossos olhos como gafanhotos; e assim também éramos aos seus olhos." Números 13.33
Como digo no meu livro Nephilim, nas notas de roda-pé, havia na antiguidade homens de estatura sobremodo elevada. Havia “homens” na terra toda cuja estatura ultrapassava 4 metros.
Os primeiros gigantes, chamados na Bíblia de Nephilins (enfilins no original hebraico, que significa "caídos" ou "desertores") — não eram apenas tão altos, mas poderosos do ponto de vista de seus saberes e ciências ocultas, conforme nos diz o livro de Enoque; e ainda conforme o testemunho histórico antropológico que nos vem de todas as culturas antigas do mundo.
Israel queria acabar com os Gigantes de Canaã, especialmente porque na mente dos judeus havia a certeza de que eles, os super-homens, eram os sobreviventes dos Caídos, os dos que desertaram a sua dimensão, os anjos, os Benai Elohim, os “filhos de Deus” que hibridizaram a criação.
Assim se diz:
"Não foi deixado nem sequer um dos anaquins na terra dos filhos de Israel; somente ficaram alguns em Gaza, em Gate, e em Asdode." Josué 11.22


Israel, todavia, conviveu com os Gigantes até aos dias de Davi, quando os quatro últimos remanescentes foram mortos. Então se diz que nesse dia “Satanás se levantou contra Israel”.
Veja mais textos que nos falam da presença dos Gigantes depois do Dilúvio, até que Davi matou os últimos deles.

"Ora, o nome de Hebron era outrora Quiriate-Arba, porque Arba era omaior homem entre os anaquins. E a terra repousou da guerra." Josué 14.15
Outros grupos de gigantes chamados de Anaquins e Refains (ou Emins) se instalaram na Palestina entre o Mar Morto e a faixa de Gaza. Os israelitas mataram todos os gigantes desta região sobrando apenas o rei Ogue (na região norte da atual Jordânia) e alguns que foram para a faixa de Gaza (região entre o Mar Mediterrâneo e a cidade de Gaza).
"Então saiu do arraial dos filisteus um campeão, cujo nome era Golias, de Gate, que tinha de altura seis côvados e um palmo [2,89 metros]." 1 Samuel 17.4
Golias é o gigante mais famoso da história. No entanto não chegava a 3 metros de altura. Sim; para mim os gigantes do tipo Golias já eram as aberrações sem o poder e nem a inteligência superior dos Nephilins originais.
Textos como o que segue nos mostram que os sobreviventes dos Nephilins, após o Dilúvio, perderam os poderes e saberes de antes, ficando apenas o gigantismo como crescente anomalia.
"Houve ainda outra guerra em Gate, onde havia um homem de grande estatura, que tinha vinte e quatro dedos, seis em cada mão e seis em cada pé, e que também era filho do gigante." 1 Crônicas 20.6

Os gigantes de hoje são apenas seres que sofrem de anomalias, e nada têm a ver com os Nephilim.
A maior marca dos Nephilim não eram o tamanho, mas, segundo o Livro de Enoque, o saber, as ciências, as artes, o conhecimento dos céus, das ervas, das poções, das magias, e do uso dos poderes e energias do mundo invisível.
Hoje temos gigantismos, não mais Nephilins. Leia as seguintes histórias:
Em 1876 chegou a Londres um gigante fossilizado de 3,65 metros com seis dedos no pé direito. Ele foi desenterrado por Mr. Dyer durante uma operação mineira em County Antrim, Irlanda. Em seguida foi levado para exposição em Dublin, Liverpool e Manchester. Numa edição de dezembro de 1895, a revista British Strand Magazine publicou uma foto do fóssil tirada no depósito de mercadorias da Broad Street da Companhia de Estrada de Ferro North-Western, sendo mais tarde reimpressa no livro Traces of the Elder Faiths of Ireland de W. G. Wood-Martin (abaixo).


























Gigantes Recentes

Um pouco menores do que o famoso Golias, o filisteu que desafiou o exército de Israel, os gigantes mais recentes registrados têm altura entre 2,50 e 2,80 metros.


Fatos Registrados
Gigantes ancestrais americanos.
·         Em seu livro The Natural and Aboriginal History of Tennessee, John Haywood descreve "ossos muito grandes" encontrados em sepulturas de pedra no município de Williamson, no estado de Tennessee, em 1821.
·         Na metade do século XIX esqueletos gigantes foram encontrados próximo de Rutland e Rodman, no estado de Nova Iorque.
·         O Dr. J.N. DeHart achou vértebras de tamanhos incomum em morros de Wisconsin em 1876.
·         W.H.R. Lykins descobriu crânios de grande tamanho e densidade em morros da cidade de Kansas em 1877.
·         O Dr. George W. Hill, achou um esqueleto de tamanho incomum em um morro do município de Ashland, no estado de Ohio.
·         Em 1879, um esqueleto de 2,94 metros foi encontrado num morro perto de Brewersville, estado de Indiana (Indianapolis News, 10/11/1975).
·         Um esqueleto enorme foi achado em um caixão de barro, com laje de arenito contendo hieroglíficos, durante explorações do Dr. Everhart num morro perto de Zanesville, estado de Ohio. (American Antiquarian, volume 3, 1880, pág61)
·         Dez esqueletos de ambos os sexos e de tamanhos gigantescos foram encontrados num morro em Warren, estado de Minnesota, 1883. (St. Paul Pioneer Press, 23/5/1883)
·         Restos de 7 esqueletos de alturas estimadas em torno dos 2,3 metros foram encontrados em Minnesota, 1888 (St. Paul Pioneer Press, 29/6/1888)
·         Num morro perto de Toledo, no estado de Ohio, foram encontrados 20 esqueletos, sentados com a face virada para o leste, com mandíbulas e dentes duas vezes maior do que o normal, e ao lado de cada esqueleto havia uma tigela grande com figuras hieroglíficas curiosamente ornamentadas. (Chicago Record, 24/10/1895, citado por Ron G. Dobbins, NEARA Journal, volume 13, outono de 1978)
·         No estado de Minnesota foram encontrados um esqueleto de um homem enorme na Fazenda Beckley, em Lake Koronis, e outros ossos gigantes em Moose Island e em Pine City (St. Paul Globe, 12/8/1896).
·         Em 1911, mineiros descobriram várias múmias de cabelos ruivos com altura que varia de 2 a 2,4 metros junto com artefatos em uma caverna em Lovelock, no estado de Nevada (The Unexplained: An Illustrated Guide to the World's Natural and Paranormal Mysteries, Dr. Karl Shuker, 1996). Obs: Uma antiga lenda local diz que havia um grupo de gigantes chamados "Si-Te-Cah" que foram exterminados pelos índios Paiutes (ou Piutes), alguns séculos antes da colonização americana. Sarah Winnemucca Hopkins, filha do Chefe indígena Paiute Winnemucca, na página 75 do seu livro Life Among the Paiutes, confirma o fato afirmando que o seu povo guardou os cabelos ruivos daquele povo durante séculos...

Arcada dentária de uma múmia de Lovelock














Dr. Karl Shuker: "O Inexplicado"


·         Próximo de Lovelock,  foram achados 2 grandes esqueletos no leito do lago Humboldt em fevereiro e junho de 1931. O primeiro media 2,6 metros de altura e parecia ter sido embrulhado em um tecido coberto com goma como as múmias egípcias. O segundo esqueleto tinha quase 3 metros (Review - Miner, 19/6/1931).
·         Samuel Hubbard, Curador Honorário de Arqueologia do Museu de Oakland, descobriu dois corpos petrificados sendo um de 4,6 e o outro de 5,5 metros, no Grand Canyon do Arizona. Próximo ao local foi encontrado um grande número de pegadas de 43 a 50 centímetros de comprimento (The Hubbard Discovery, Setembro de 1923).
·         Em Julho de 1877, na região de Spring Valley próximo de Eureka, estado de Nevada, foram encontrados um joelho e um osso de perna humana tendo esta a medida de 99 centímetros, equivalente a altura de uma pessoa de aproximadamente 3,5 metros. Os ossos estavam bastante carbonizados devido a sua idade (Strange Relics from the Depths of the Earth, J.R. Jochmans, 1979).

Minha convicção é que muitos achados e descobertas “científicas” súbitas são frutos de “revelações” dos mesmos Benai Elohim que na antiguidade foram os senhores e mestres dos homens pela elevação do seu saber extra-ordinário.
Hoje os Nephilim, os Benai Elohim, “os filhos de Deus” do Genesis, segundo o Livro de Enoque, se tornaram demônios; ou seja: Enoque, o livro, nos diz que após morrerem os Nephilim receberam o castigo de terem que existir na Terra, num limbo dimensional; podendo apenas tentar penetrar almas abertas para eles ou que os invocassem. As Epístolas de Pedro e Judas se baseiam nesses fatos do passado da Terra e os usam como ilustração da realidade que os Nephilim, hoje, não trabalham mais do mesmo modo, como no passado, mas que, dada a sua presente situação e juízo, agem apenas pela via da indução ou da mediunidade.

A fixação dos anjos caídos neste mundo é alterar a natureza humana e controlar as nossas mentes!

Como diz Paulo esses são os “espíritos que agora atuam nos filhos da desobediência”.
Eles estão em tudo e em todas as coisas...
Por isto Satanás disse a Jesus que os poderes deste mundo tinham sido dados a ele, e que ele os daria a quem ele quisesse.
Hoje os Nephilins vão das possessões demoníacas às assombrações e fantasmagorias; vão dos coitos satânicos e consagrados ao diabo às monstrificações em laboratórios de genética; vão das facadas às armas climáticas em franco e célere desenvolvimento; vão dos aparatos de morte aos óvnis misteriosos; vão dos puteiros às orgias globais; vão dos cultos de frango, farinha e cachaça às alquimias da ciência mais evoluída; ou seja: eles sumiram no espírito a fim de fazerem de seu gigantismo algo muito mais gigantesco, só que não perceptível pelo olhar que apenas vê com o globo ocular.

E mais:
TENHO A FORTE SUSPEIÇÃO QUE HOJE EXISTEM CONFRARIAS CONSCIENTES DE TAIS FORÇAS E PODERES; E SÃO TAIS CONFRARIAS QUE REINAM SOBRE PRESIDENTES E PODERES OFICIAIS DESTE MUNDO!

Os donos deste mundo são conhecidos apenas por eles mesmos; sim, pelos membros do mesmo clube da morte e da manipulação!
E mais: eles são de países e raças diferentes, mas unidos pela mesma ideologia espiritual: a dos Nephilins!
Digo isto apenas para que se pense!...
Isto não salva o espírito, mas ajuda a gente a andar de olhos bem abertos!

Nele, em Quem todo Gigante cai pelo sobro de Sua boca.



O ateu, o crente e o bicho-papão - Ed René Kivitz


Outro dia alguém me enviou pelo twitter a seguinte pergunta: “quando vc era criança também acreditava em bicho-papão, porque deixou de acreditar?”

Minha primeira reação foi ignorar a pergunta, formulada em tom de crítica a um tweet que postei testemunhando minha fé em Deus. Imaginei que o autor da pergunta não esperava resposta, apenas pretendia sugerir a estupidez da minha fé. Tive a mesma sensação que experimentei quando comecei a ler um texto sobre “razões porque deixei de ser crente” e o autor logo na primeira página comparou a crença em Deus à crença no Saci-Pererê. Mas, passado o ímpeto de deixar pra lá, resolvi responder, pelo menos para mim mesmo.

Minha resposta começaria afirmando que jamais acreditei em bicho-papão. O que me aterrorizava na infância eram os ciganos e o “velho do saco”. Devo isso às minhas avós, que diziam que esses homens malvados gostavam de raptar meninos desobedientes. Registro que acredito em ciganos e velhos do saco, não necessariamente como raptores de crianças, embora seja em parte verdadeiro. Mas resolvi responder como se meu imaginário infantil tivesse sido ocupado por esse tal de bicho-papão.

Eis, portanto, algumas razões porque, embora continue acreditando em Deus, deixei de acreditar em bicho-papão.

  • Não conheço nenhum adulto que acredita em bicho-papão
  • Não conheço nenhuma civilização baseada em bicho-papão
  • Não conheço nenhuma religião que considere o bicho-papão um ser divino
  • Nunca ouvi uma pessoa dizer que foi transformada pelo bicho-papão
  • O bicho-papão não constitui o dilema existencial humano desde sempre
  • Nenhuma tradição de pensamento humano se ocupa com o bicho-papão
  • Nenhum gênio da humanidade viveu atormentado por causa do bicho-papão
  • O bicho-papão não se sustenta num texto considerado sagrado por mais da metade da população mundial, escrito ao longo de 2 mil anos, por 40 autores diferentes
  • Não existe quem atribua a existência do universo ao bicho-papão
  • Jamais alguém defendeu sua fé no bicho-papão com a própria vida
  • Nenhuma das virtudes humanas é associada ao bicho-papão
  • O bicho-papão não é uma crença universal e atemporal
  • O bicho-papão não ajuda a explicar o mundo em que vivo
  • O bicho-papão não ajuda a explicar a complexidade da raça humana
  • O bicho-papão não ajuda a explicar o homem que sou
 Cansei. Já passa da meia noite.

Clarice Falcão e o livre arbítrio que nos prende


Se não fossem as minhas malas cheias de memórias
Ou aquela história que faz mais de um ano
Não fossem os danos
Não seria eu
Se não fossem as minhas tias com todos os mimos
Ou se eu menino fosse mais amado
Se não desse errado
Não seria eu
Se o fato é que eu sou muito do seu desagrado
Não quero ser chato
Mas vou ser honesto
Eu não sei o que você tem contra mim
Você pode tentar por horas me deixar culpado
Mas vai dar errado
Já que foi o resto da vida inteira que me fez assim
Se não fossem os ais
E não fosse a dor
E essa mania de lembrar de tudo feito um gravador
Se não fosse Deus
Bancando o escritor
Se não fosse o mickey e as terças feiras e os ursos pandas e o andar de cima da
Primeira casa em que eu morei e dava pra chegar no morro só pela varanda se
Não fosse a fome e essas crianças e esse cachorro e o Sancho Pança se não fosse o
Koni e o Capitão Gancho
Não seria eu!



Osvaldo Luiz Ribeiro

Não importa se foi "Deus" quem disse, se foi seu pai, sua mãe, seu professor, seu pastor, o herói da TV, o cara do facebook, o menino da rua, a Xuxa... Não repita. Não acredite. Primeiro, reflita, pense, raciocine. Não seja maria-vai-com-as-outras. Pense. PelamordeDeus, pense! Depois, se for o caso, já se apropriou da coisa, e a dirá não porque disseram, mas porque ela já é sua. 

Porém - Sergio Vaz

Queria ter vivido melhor,
Porém a mediocridade sempre me foi farta e generosa
Nos caminhos que escolhi para viver.

Queria ter sido mais alegre,
Porém a tristeza sempre foi companheira fiel
Nos dias intermináveis de abandono.

Queria ter amado mais as pessoas que conheci
Ou que fingi conhecer,
Porém na maioria das vezes, eu também não me conhecia.

Queria ter andado mais livre,
Porém, algemado à ignorância, perdi muito tempo
Tentando voar sem sequer saber andar.

Queria ter lido mais livros,
Porém, analfabeto de ousadia, passei muitos anos
Enxergando pelos olhos adormecido de outras pessoas.

Também queria ter escritos mais poemas
Do que bilhetes pedindo desculpas,
Porém, as palavras sempre me vieram como culpa
E não como estrelas.

Queria ter roubado mais beijos e abraços
Das meninas que andavam desprotegidas,
Protegidas pela magia da infância,
Porém, cresci muito cedo, e a timidez sempre me foi
Uma lei muito severa a ser cumprida.

Queria ter pensado menos no futuro,
Porém, o passado simples nunca foi o melhor presente
E a eternidade sempre me pareceu coisa de gente que tem preguiça de viver.

Queria ter sido um homem mais humilde
Porém, a vaidade e a ganância sempre me cercaram
De mimos e coisas que até hoje não sei para que serviram.

Queria ter pregado mais a paz,
Porém, como um covarde, gastei muita munição tentando atingir amigos e
desconhecidos que não usavam coletes à prova de balas nem blindados no
coração.

Queria ter sido mais forte,
Porém rir dos vencidos e bajular os mais ricos
Sempre me pareceu o caminho mais curto
Para o esconderijo secreto das minhas fraquezas.

Queria ter dito mais a verdade,
Porém a mentira sempre foi moeda de troca
Para comprar o respeito e a admiração das pessoas fúteis
De almas vazias.

Queria que o mundo fosse mais justo
Porém, avarento de nascença, fui o primeiro a esconder o sol na palma da
mão, antes que o vizinho o fizesse.

E mesquinho por vocação escondi as noites com lua
Para que os poetas não a cortejassem.

Queria ter dito mais besteiras,
Porém fui desses idiotas amantes das proparoxítonas
E sujeito oculto nos bate-papos de botecos de esquinas,
Onde a vida não acontece por decreto.

Queria ter colhido mais flores,
Porém o medo de espinhos afugentou a primavera.

E outono que sempre fui,
plantei inverno quando a terra pedia verão.

Hoje queria ter acordado mais cedo,
Porém temo que pra mim
Seja tarde demais.

Ai Se Sêsse - Zé da Luz

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse


É menina - Gregório Duvivier

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Perdoem-me o desgosto! - Caio Fábio D'Araújo Filho


PERDOEM-ME O DESGOSTO! ESTÁ INSUPORTÁVEL!


Perdoem-me, irmãos, eu confesso a tão aguardada confissão de minha boca. Sim, eu confesso que não posso mais deixar de declarar a minha alma. Para mim é questão de vida ou morte. Perdoem-me, irmãos, mas eu preciso confessar.

Sim, eu confesso…

Está insuportável. Se eu não abrir a minha boca, minha alma explodirá em mim.

É insuportável ligar a televisão e ver o culto que se faz ao Monte Sinai, que gera para escravidão. Os Gálatas são o nosso jardim da infância. Nós nos tornamos PHDs do retrocesso à Lei e aos sacrifícios. Pisa-se sobre a Cruz de Cristo em nome de Jesus. Insuportável! Seja anátema!

É insuportável ver o culto à fé na fé, e também assistir descarados convites feitos em nome de Deus para que se façam novos sacrifícios, visto que o de Jesus não foi suficiente, e Deus só atende se alguém fizer voto de freqüência ao templo, e de dinheiro aos sacerdotes do engano e da ganância. Insuportável!

É insuportável assistir ao silêncio de todos os dantes protestantes—e que até hoje ofendem os cultos afro-ameríndios por seus sacrifícios, sendo que estes ainda têm razão para sacrificar, visto que não confessam e não oram em nome de Jesus—ante o estelionato feito em e do nome de Jesus, quando se convida o povo para sacrificar a Deus, tornando o sacrifício de Jesus algo menor e dispensável. Insuportável!

É insuportável ver o povo sendo levado para debaixo do jugo da Lei quando se ressuscitam as maldições todas do Velho Testamento, e que morreram na Cruz, quando Jesus se fez maldição em nosso lugar. Insuportável!

É insuportável ver que para a maioria dos cristãos a Lei não morreu em Cristo, conforme a Palavra, visto que mantêm-na vigente como “mandamento de vida”, mas que apenas existe para gerar culpa e morte, também conforme a Escritura. Insuportável!

É insuportável ver e ouvir pastores tratando a Graça de Deus como se fosse uma parte da Revelação, como mais uma doutrina, sem discernir que não há nada, muito menos qualquer Revelação, se não houver sempre, antes, durante, depois, transcendentemente e imanentemente, Graça e apenas Graça. Misericórdia!

É insuportável ver a Bíblia sendo ensinada por cegos e que guiam outros cegos, visto que nem mesmo passaram da Bíblia como livro santo, desconhecendo a Revelação da Palavra da Graça do Evangelho de Deus. Insuportável tristeza!

É insuportável ver que os cristãos “acreditam em Deus”, sem saber que nada fazem mais que os demônios quando assim professam, posto que não estamos nesta vida para reconhecer que Deus existe, mas para amá-Lo e conhecê-Lo. Insuportável desperdício!

É insuportável enxergar que a mensagem do Evangelho foi transformada em guia religioso, no manual da verdade dos cristãos, mais uma doutrina da Terra. Insuportável humilhação!

É insuportável ver os que pensam que possuem a doutrina certa jamais terem a coragem de tentar vivê-la como mergulho existencial de plena confiança, mas tão somente como guia de bons costumes e de elevados padrões morais. Insuportável religiosidade!

É insuportável ver gente tentando “estudar Deus”, e a ensinar aos outros a “anatomia do divino”, ou a buscar analisar Deus como parte de um processo, no qual Deus está aprendendo junto conosco, não sabendo tais mestres que são apenas fabricantes de ídolos psicológicos. Insuportável sutileza!

É insuportável ver que há muitos que sabem, mas que nada dizem; vêem, mas nada demonstram; discernem, mas em nada confrontam; conhecem, mas tratam como se nada tivesse conseqüências… Insuportável…

É insuportável ver que se prega o método de crescimento de igreja, não a Palavra; que se convida para a igreja, não mais para Jesus; e que a cada cinco anos toda a moda da igreja muda, conforme o que chamam de “novo mover”. Insuportável vazio!

É insuportável ouvir pastores dizendo que o que você diz é verdade, mas que eles não têm coragem de botar a cara para apanhar, mesmo que seja pela verdade e pela justiça do evangelho do reino de Deus. Insuportável dissimulação!

É insuportável ver um monte de homens e mulheres velhos e adultos brincando com o nome de Deus, posando de pastores, pastoras, bispos, bispas, apóstolos e apostolas, sendo que eles mesmos não se enxergam, e não percebem o espetáculo patético no qual se tornaram, e o ridículo de suas aspirações messiânicas estereotipadas e vazias do Espírito. Insuportável jactância e loucura!

É insuportável ver Jesus sendo tratado como “poder maior” e não como único poder verdadeiro. Insuportável idolatria!

É insuportável ver o diabo ser glorificado pela freqüência com a qual se menciona o seu nome nos cultos, sendo que Paulo dele falou menos de uma dúzia de vezes em todas as suas cartas, e as alusões que Jesus fez a ele foram mínimas. No entanto, entre nós o diabo está entronizado como o inimigo de Cristo e o Senhor das Culpas e Medos. E, assim, pela freqüência com a qual ele é mencionado, ele é crido; e seu poder cresce na alma dos humanos, a maioria dos quais sabe apenas do Medo da Lei, e nada acerca da Total Libertação que temos da Lei e do diabo na Graça de Jesus, que o despojou na Cruz. Insuportável culto!

É insuportável ver seres humanos sendo jogados fora do lugar de culto por causa de comida, bebida, cigarro, roupa, sexualidade, ou catástrofes de existência. Isto enquanto se alimenta o povo com maldade, inveja, mentira, politicagem, facções, e maldições. Insuportável é coar o mosquito e engolir o camelo!

É chegada a hora do juízo sobre a Casa de Deus!

De Deus não se zomba, pois aquilo que o homem semear, isto também ceifará. A eternidade está às portas. Então todos saberão que não minto, mas falo a verdade, conforme a Palavra do Evangelho de Jesus.

Com tremor e temor, porém certo da verdade de Jesus.

Dessa Vida - Paulo Brabo

Que nada na vida nos pertence deveria ficar claro pela facilidade com que podemos perder tudo.

Nossa vida, senhoras e senhores, resume-se à nossa própria carcaça e uma malinha de roupas: literalmente, aquilo que podemos carregar. Todo o resto, quer sejam pessoas ou coisas, tem marcadas em si mesmas o status terrível de temporário; Deus, o destino, a iniciativa dos outros ou nossa própria incompetência podem levá-los para irremediavelmente longe a qualquer momento.

Haverá um momento, asseguram-me ainda, em que até mesmo a carcaça será tirada de nós, e então a malinha de roupas não nos terá finalmente qualquer utilidade. Até lá parece prudente amar as pessoas e fazer uso das coisas sem apegar-se nem a uns nem a outros, porque não nos pertencem e a vida pode querer deixar isso muito claro pelo menos uma vez.

A privação total e a solidão absoluta não deveriam de fato nos surpreender; o milagre é que tenhamos tido, em algum momento, alguma coisa. A súbita pobreza de Jó não deveria nos parecer especialmente notável; surpreendente, na verdade, é que tenhamos sido felizes.

O evangelho integral - Ed René Kivitz


O evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens.
     [do Pacto de Lausanne]

. O paradigma da missão integral

O movimento da missão integral, ou teologia da missão integral, popularizado após o Congresso Internacional de Evangelização Mundial realizado em Lausanne, Suiça, em 1974, ganhou as ruas no Brasil somente depois que o Pacto de Lausanne foi publicado em português, dez anos após sua elaboração.
Desde então a expressão missão integral ficou restrita ao debate a respeito da relação entre evangelização e responsabilidade social, e chegou aos nossos dias tão reduzido que qualquer igreja que tem uma creche acredita estar “fazendo missão integral”.

Evidentemente isso é uma distorção do conceito em seus termos originais, até porque o Pacto de Lausanne é uma síntese de muitos outros documentos e de um riquíssimo debate teológico, pastoral e missional que correu pela América Latina, inclusive anos antes de Lausanne, como por exemplo no primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I), em Bogotá, 1969, e no surgimento da Fraternidade de Teólogos Latino-americanos (FTL), em Cochabamba, 1970.

O fato é que missão integral se tornou um conceito atrelado a ideias como (1) tarefa, pois é missão, e nesse sentido é menor do que o conceito de vivência ou experiência pessoal e comunitária da fé; (2) ação proselitista: ação que visa a conversão; (3) ação em favor dos pobres: diaconia, projetos sociais, atuação para mudanças das estruturas sociais; e a (4) polarização ou integração dos temas evangelização e responsabilidade social da igreja. Em outras palavras, o senso comum associa missão integral com evangelização somada à ação social, com uma perspectiva reducionista, apesar de lógica: comprometa-se com as causas da justiça social tanto para adquirir o direito de anunciar o Evangelho quanto para dar credibilidade às suas ações evangelísticas, pois o que importa mesmo é a conversão das pessoas e o crescimento da igreja.

Uma reflexão a respeito do conceito mais fundamental da teologia ou movimento da missão integral, expresso no tema central do Pacto de Lausanne, a saber, o evangelho todo para o homem todo, nos levará muito além das fronteiras definidas pela relação evangelização e responsabilidade social.

. O paradigma do evangelho integral

Para quebrar o paradigma missão integral = evangelização + responsabilidade social, proponho a substituição do termo missão integral por evangelho integral. Por evangelho integral quero dizer:

. o evangelho como lente para leitura da vida em sua totalidade
. o evangelho aplicado a todas as dimensões do humano
. o evangelho aplicado a todas as dimensões da vida
. o evangelho aplicado a todas as dimensões das relações humanas
. o evangelho aplicado a todas as dimensões da vida em sociedade
. o evangelho como realidade que afeta todas as dimensões do universo criado

Observe que alguém facilmente diria que um projeto social está relacionado com missão integral, mas dificilmente consideraria um encontro de casais realizado num hotel 5 estrelas como um projeto de missão integral. A organização de um centro comunitário é imediatamente percebido como ação de missão integral, mas um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoa e Adélia Prado exigiria muita explicação para que fosse associado àmissão integral. O senso comum diria que o médico que dedica um final de semana para trabalho voluntário numa comunidade da periferia da cidade está fazendo missão integral, mas diria que o mesmo médico, cobrando R$ 700,00 por uma consulta em seu consultório, está realizando seu trabalho secular (não religioso), ou, no máximo, ganhando dinheiro para financiar projetos de missão integral.

É urgente ampliarmos o horizonte de reflexão. Extrapolar os limites definidos pelo debate evangelização/responsabilidade social e mergulharmos nas implicações das relações sagrado/profano e religioso/não religioso para a vivência da espiritualidade cristã pessoal e comunitária.

. O sagrado e o profano

Os termos sagrado e profano são amplamente discutidos pelos teóricos das ciências da religião, como Mircea Eliade, Émile Durkheim e Rudolf Otto. Para esses teóricos, sagrado é basicamente aquilo que porta uma manifestação do divino ou do transcendente, que Otto, por exemplo, chama de numinoso oumysterium tremendum, e Eliade considera ser de uma ordem diferente ou de uma realidade que não pertence ao mundo natural. Nesse sentido, profano não está necessariamente associado a sujo, demoníaco, diabólico ou oposto a Deus. Profano é apenas e tão somente toda a ordem natural que não comporta uma manifestação ou relação com o divino, sobrenatural ou transcendente.

Em termos simples, a partir de uma perspectiva religiosa cristã, considero sagrado tudo aquilo que está de acordo com o caráter e os propósitos de Deus ou que a Deus esteja relacionado de maneira direta e intencional. Profano seria, então, aquilo que é neutro ou até mesmo está em oposição ao que é sagrado, isto é, aquilo que não está de acordo ou não está relacionado de maneira intencional e direta com o caráter e os propósitos de Deus.

A relação das expressões religioso/não religioso e sagrado/profano nos remete imediatamente à compreensão de que, assim como existe uma dimensão sagrada no espaço não religioso, existe também uma dimensão profana no espaço religioso.

O chamado cristão é para que todas as dimensões da vida sejam santificadas – tornadas sagradas, isto é, desenvolvidas e experimentadas de modo a se conformarem ao caráter e aos propósitos de Deus. O evangelho integral é a expressão que passo a usar para me referir ao desafio de sujeitar a Deus todas as dimensões da existência humana.

Voltando aos exemplos anteriores, um encontro de casais realizado num hotel 5 estrelas, um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoa e Adélia Prado, e a consulta médica ao valor de R$ 700,00 podem perfeitamente ser atividades sagradas, isto é, desenvolvidas de acordo com o caráter e os propósitos de Deus, sendo, portanto, vivências do evangelho integral.

. O espírito da coisa

A expressão evangelho integral representa melhor o espírito de Lausanne e do movimento da missão integral, a saber: o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens.

Não quero mais ser evangélico – Ariovaldo Ramos

Ser evangélico, pelo menos no Brasil, não significa mais ser praticante e pregador do Evangelho (Boas Novas) de Jesus Cristo, mas, a condição de membro de um segmento do Cristianismo, com cada vez menor relacionamento histórico com a Reforma Protestante - o segmento mais complicado, controverso, dividido e contraditório do Cristianismo. O significado de ser pastor evangélico, então, é melhor nem falar, para não incorrer no risco de ser grosseiro. Não quero mais ser evangélico! Quero voltar para Jesus Cristo, para a boa notícia que Ele é e ensinou. Voltemos a ser adoradores do Pai porque, segundo Jesus, são estes os que o Pai procura e, não, por mão de obra especializada ou por "profissionais da fé". Voltemos à consciência de que o Caminho, a Verdade e a Vida é uma Pessoa e não um corpo de doutrinas e/ou tradições, nascidas da tentativa de dissecarmos Deus; de que, estar no caminho, conhecer a verdade e desfrutar a vida é relacionar-se intensamente com essa Pessoa: Jesus de Nazaré, o Cristo, o Filho do Deus vivo. Quero os dogmas que nascem desse encontro: uma leitura bíblica que nos faça ver Jesus Cristo e não uma leitura bibliólatra. Não quero a espiritualidade que se sustenta em prodígios, no mínimo discutíveis, e sim, a que se manifesta no caráter.  Chega dessa "diabose"! Voltemos à graça, à centralidade da cruz, onde tudo foi consumado. Voltemos à consciência de que fomos achados por Ele, que começou em cada filho Seu algo que vai completar: voltemos às orações e jejuns, não como fruto de obrigação ou moeda de troca, mas, como namoro apaixonado com o Ser amado da alma resgatada.  Voltemos ao amor, à convicção de que ser cristão é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos: voltemos aos irmãos, não como membros de um sindicato, de um clube, ou de uma sociedade anônima, mas, como membros do corpo de Cristo. Quero relacionar-me com eles como as crianças relacionam-se com os que as alimentam - em profundo amor e senso de dependência: quero voltar a ser guardião de meu irmão e não seu juiz. Voltemos ao amor que agasalha no frio, assiste na dor, dessedenta na sede, alimenta na fome, que reparte, que não usa o pronome "meu", mas, o pronome "nosso". 
Para que os títulos: "pastor", "reverendo", "bispo", "apóstolo", o que eles significam, se todos são sacerdotes? Quero voltar a ser leigo! Para que o clericalismo? Voltemos, ao sermos servos uns dos outros aos dons do corpo que correm soltos e dão o tom litúrgico da reunião dos santos; ao, "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu lá estarei" de Mateus 18.20. Que o culto seja do povo e não dos dirigentes - chega de show! Voltemos aos presbíteros e diáconos, não como títulos, mas, como função: os que, sob unção da igreja local, cuidam da ministração da Palavra, da vida de oração da comunidade e para que ninguém tenha necessidade, seja material, espiritual ou social. Chega de ministérios megalômanos onde o povo de Deus é mão de obra ou massa de manobra!
Para que os templos, o institucionalismo, o denominacionalismo? Voltemos às catacumbas, à igreja local. Por que o pulpitocentrismo? Voltemos ao "instruí-vos uns aos outros" (Cl 3. 16).
Por que a pressão pelo crescimento? Jesus Cristo não nos ordenou a sermos uma Igreja que cresce, mas, uma Igreja que aparece: "Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. "(Mt 5.16). Vamos anunciar com nossa vida, serviço e palavras "todo o Evangelho ao homem... a todos os homens". Deixemos o crescimento para o Espírito Santo que "acrescenta dia a dia os que haverão de ser salvos", sem adulterar a mensagem.
Chega dos herodianos que vivem a namorar o poder, a vender a si e as ovelhas ao sistema corrupto e corruptor; voltemos à escola dos profetas que denunciam a injustiça e apresentam modelos de vida comunitária.
Chega do corporativismo, onde todo mundo sabe o que acontece, mas, ninguém faz nada; voltemos ao confronto, como o de Paulo a Pedro (Gl 2.11), que dá oportunidade ao arrependimento e aperfeiçoa, como “o ferro afia o ferro” (Pv 27.17).
Saiamos do “metodologismo”. Voltemos a “ser como o vento, que sopra onde quer, se ouve a sua voz mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai” (Jo 3.8)
Não quero mais ser evangélico, como o é entendido, hoje, neste país! Quero ser só cristão. Um cristão integral, segundo a Reforma e os Pais da Igreja. Adorando o Pai, em espírito e em verdade, comungando, em busca da prática da unidade do “novo homem”, criado por Cristo à sua imagem (Ef 2.15), e praticando a missão integral.

A terrível e fascinante consciência do tempo - Ricardo Gondim


A vida é breve. Somos um conto ligeiro. Duramos o tempo do sono em noite cansada. Desgastamo-nos feito pano velho. Frágeis, passamos como a flor que floresce pela manhã e murcha à tarde.  Nascemos com sede de eternidade, temos, porém, que nos contentar com a existência efêmera, espremida entre duas datas; do nascimento não nos lembramos e da morte não teremos consciência.
Gastamos os nossos primeiros dez anos de vida sem saber ao certo quem somos e de onde viemos; a segunda década sem noção aonde vamos parar com nossa sexualidade, nossa vocação e nossos afetos; entre os vinte e os trinta, mal nos detemos, ávidos por sucesso, riqueza e poder; aos quarenta, encaramos a mais terrível crise – a da meia idade – por notar que os sonhos e ideiais não passavam de devaneios onipotentes; com cinquenta, administramos as consequências das tempestividades e o luto de perder nossos ascendentes; com sessenta, ouvimos o assobio triste da morte à distância; com setenta, ficamos introspectivos, a pensar  como tudo passou tão depressa; com oitenta, nos preparamos para a realidade inevitável de que não haverá exceção, nós seguiremos o caminho de todos os mortais. E tudo se passou num piscar de olhos.
Miguel Torga sedimentava para si a límpida realidade da vida, ao grafar em seus diários a expressão do francês Amiel: cada dia, deixamos um pedaço de nós próprios pelo caminho.
A morte é cúmplice do tempo, irmã da tragédia e senhora de tudo. Ela se orna de capuz, traz uma foice na mão e, sem piedade, afasta amantes, desola pais, fere amigos. Ela acompanha o tiquetaquear inclemente do relógio sem mexer um músculo de seu rosto magro. Os verbos prediletos da morte são: acabar, fenecer, terminar, finalizar, sumir, anular.
Em Epitáfio, os Titãs chamam à reflexão. Devia ter amado mais/ Ter chorado mais/ 
Ter visto o sol nascer/
 Devia ter arriscado mais/ 
E até errado mais/
 Ter feito o que eu queria fazer… Queria ter aceitado/ 
As pessoas como elas são/ 
Cada um sabe a alegria/
 E a dor que traz no coração…/ O acaso vai me proteger/
 Enquanto eu andar distraído/
 O acaso vai me proteger/
 Enquanto eu andar…/ Devia ter complicado menos/
 Trabalhado menos/
 Ter visto o sol se pôr
/ Devia ter me importado menos/ 
Com problemas pequenos/
 Ter morrido de amor…/ Queria ter aceitado/ 
A vida como ela é,
 A cada um cabe alegrias/ 
E a tristeza que vier… 
A morte, essa implacável senhora está por aí, na espreita. Valorizemos, então, as coisas simples, arriscando mais, sem medo de errar, e aceitando as pessoas sem o rigor de nossas neuroses.  E se a existência é fugaz como sonho ou neblina, o tempo de começar a viver de verdade é agora. 

Redimido pela amizade – Paulo Brabo


O momento em abandonei o território mítico e razoavelmente seguro da infância e cai no terreno não-mapeado da adolescência foi quando me mudei com meus pais de Londrina, no norte do Paraná, para Bauru, no interior de São Paulo, no início da década de 1980. O momento exato, a hora em que atravessei pela primeira vez sozinho o portão da E. E. P. S. G. Dr. Luiz Zuiaini, a cinco quadras do sobrado para o qual nos havíamos mudado.
O tio que cuidava do portão me devolveu carimbada a carterinha (que eu não sabia o que era, mas descobri mais tarde ser no estado de São Paulo um abrangente passaporte da vida escolar: ao mesmo tempo registro de presença, boletim e livro de ocorrências) e adentrei boquiaberto os corredores largos e apinhados e escadarias monolíticas que levavam a níveis superiores e perigos desconhecidos. Fiquei impressionado com a mera vastidão do prédio, mas foram as conversas que entreouvi entre os alunos que me deixaram apavorado.
Eu estava na quinta série, mas aquelas conversas eram tão absolutamentemaduras – nada que se comparasse à sã algazarra infantil a que eu estava acostumado em Londrina. Os alunos avaliavam sensatamente o rompimento de um namoro que não havia dado certo, lembravam civilizadas visitas ao clube, zombavam gostos musicais, defendiam apaixonadamente bandeiras de times de futebol. Percebi que ostentar uma personalidade distinta era requerimento necessário para me relacionar com aquela gente e isso, eu sabia, eu não tinha como oferecer.
Fiquei quase feliz de não conhecer ninguém naquele primeiro dia, porque certamente não teria o que dizer ou sobre o que conversar. Franzino, desajeitado, miseravelmente tímido e piscando nervoso atrás de óculos fundo de garrafa, eu estava desarmado e o mundo era perigoso.
Meu suicídio social completou-se, naturalmente, quando minhas primeiras notas começaram a fluir. Eu sabia que estava sendo avaliado basicamente pelo talento que não demonstrava na arena dos esportes e da popularidade, mas não era tão irremediavelmente ruim ser meramente uma negação no futebol, como o Amauri. Como o pecado contra o Espírito Santo, era tirar apenas notas azuis que não tinha perdão.
Eu tentava me distrair da inadequação na escola buscando desvendar os outros mecanismos da cidade, mas falhava em descobrir qualquer horizonte promissor. Tudo em Bauru era para mim diferente ao ponto de parecer alienígina. As casas eram numeradas pela sua posição dentro de quadras que eram por sua vez numeradas: nosso sobrado ficava na Rua Pernambuco 8-40 – isto é, quadra 8, número 40. Dentro bem como fora da escola, o assunto da segunda-feira eram os eventos do Tênis Clube (do qual eu não chegaria a ser sócio) para o qual toda a população saudável da cidade se deslocava nos finais de semana. Tentei buscar refúgio na Biblioteca Municipal, que me pareceu brutalmente acanhada comparada à de Londrina, e não tinha os dois volumes das fábulas de La Fontaine ilustradas por Gustave Doré que eu gostava de folhear. Não havia ao redor da cidade os parques, rios ou montanhas onde meu pai costumava nos levar para passear. Quando chegamos, Bauru não tinha cinema e tinha uma única rádio FM. Não tinha nenhuma livraria. E eu não conhecia ninguém.
Nada se comparava, no entanto, ao desafio que eu tinha de enfrentar na escola. Não era, no final das contas, culpa dos meus colegas, e isso eu sabia mesmo naquela época. Apenas não se podia esperar que eles soubessem lidar com um cara como eu – irremediavelmente introvertido e analfabeto social, que assistia religiosamente O Clube do Mickey (e tinha sonhos comprometedores com a Kelly, a apresentadora loirinha), ouvia à exaustão os discos do Balão Mágico e passava as tardes lendo uma enciclopédia no sofá.
Para piorar as coisas, acabei me apaixonando perdidamente pela Kátia, da fila da parede, uma baixinha de cabelos longos e castanhos que me fazia lembrar a irresistível Paula Saldanha do Globinho. A Kátia, no entanto, só tinha olhos para os caras maduros da sétima série, e estava que eu soubesse arrastando as asinhas para o Sandro, que era alto, bonito e troncudo, tirava notas boas mas em compensação se dava bem nos esportes, era sócio do Tênis e tinha cabelo no peito.
Vale lembrar que eu não sentia hostilidade alguma da parte de nenhum desses, e eu basicamente os admirava. Eu daria tudo para poder ser aceito por eles: para não usar óculos, jogar bem futebol e nadar distraidamente na piscina do Tênis ostentando pernas que não fossem tão chocantemente brancas.
Foi então que, por alguma razão que até agora não consigo entender, o Paulo Henrique ficou meu amigo. O Paulo era, e na minha própria classe, uma versão ainda mais turbinada do Sandro da sétima série: tinha os olhos azuis e cabelos alourados do Homem de Seis Milhões de Dólares, pinta de Johnny Quest, tirava notas tecnicamente tão boas quanto as minhas e jogava futebol infinitamente melhor. Era gentil, sorridente, popular sem jamais ser arrogante, relacionava-se civilizadamente com a Kátia e dignou-se em ser meu amigo.
O destino colocou o Paulo Henrique na carteira de trás e ficamos logo companheirões – inseparáveis nos terrenos na escola. Com o Paulo como credencial, descobri que podia freqüentar com facilidade qualquer grupo, mesmo quando ele não estava comigo. Se o Paulo era meu amigo, as pessoas entendiam, eu não podia ser um fracasso tão completo quanto parecia. Logo eu estava fazendo amigos dentro e fora da classe. O encantou quebrou-se e acabei falando com a Kátia pela primeira vez. Pior: ficamos amigos, e se não chegamos a namorar ela me gravou a trilha sonora da novela Baila Comigonuma vermelhinha fita Hot Tape da BASF – e foi a primeira vez que pude ouvir quantas vezes quisesse os violinos e doces vocais da canção Time, do Alan Parsons Project. Ainda pior: fiquei amigo do Sandro, que nunca chegou a namorar a Kátia mas salvou a minha pele uma vez ou outra.
Foi com o Paulo Henrique que descobri que a amizade é um mistério divino que tem um tremendo poder redentor. Tive outros amigos depois, que me protegeram e me ajudaram a amadurecer e sobreviver, mas o primeiro amigo do mundo foi o Paulo Henrique. A amizade tranqüila dele me ensinou que a tolerância e o carinho podem unir, mesmo fora de um roteiro de Hollywood, as duplas mais improváveis – com resultados que para mim foram tremendamente compensadores. Meu amigo não exigiu de mim nenhuma personalidade criada artificialmente, e ele que eu saiba me ajudou a desenvolver e descobrir a minha própria. Não me rejeitou por não ostentar as credenciais socialmente aceitas, e me ajudou a adquirir as minhas.
O emblema da redenção social com o que o Paulo me agraciou aconteceu naquele que era para mim o pior momento de todos (a escolha dos times) na pior hora de todas (a aula de Educação Física). Eu sabia que eu e o Amauri éramos inevitavelmente os últimos a sermos escolhidos, mas isso não diminuía a agonia que era ser sumariamente rejeitado até o último instante. Eu sabia que devia entender que ninguém poderia querer no seu time um perna-de-pau incontestável como eu, mas aquele era um momento em que o mundo era um lugar difícil de se perdoar.
Chegou então o dia em que o Paulo Henrique foi designado para escolher um dos dois times e ele, aparentemente sem esforço algum, me escolheu. Senhoras e senhores, o homem me escolheu. A mim. O céu e a terra tomo hoje por testemunha, que o cara sem coisa alguma para oferecer, o caso perdido com nada para contribuir, foi escolhido graciosamente para constar numa equipe que não tinha como ajudar.
Devo ter afundado o time dele inúmeras vezes, mas o Paulo Henrique consistemente se suicidou pra me inserir na sua equipe antes impecável de futebol. Eu ficava na defesa, sem óculos, tentando discernir o entre o borrão da bola e uma canela ameaçadora disfarçada de kichute. Mas eu estava lá. Eu tinha sido escolhido.
Uma vez, só uma vez, o professor de Educação Física disse que eu e o Amauri escolhêssemos os times, e escolhi cerimoniosamente, antes de todos, o Paulo Henrique. Lembro do momento, o glorioso e silencioso momento daquele jogo em que o Paulo gritou o meu nome e saí correndo da defesa em direção ao gol do adversário. Numa sincronia perfeita da qual nenhum roteirista de Hollywood participou, o Paulo me fez um cruzamento cordial e chutei cheio de vontade para um gol que não tinha como errar.
Aquele foi meu primeiro gol legítimo. De fato, meu único gol – um gol que meu sorridente cúmplice não precisava de mim para fazer e que creio só nós dois celebramos. Apenas mais um dos privilégios gentis com que a sua amizade me presenteou – mas mais um que não tenho como esquecer.
Te devo uma, Paulo Henrique. Ter um amigo me salvou e me desafiou a ser digno dele – a tornar-me, quem sabe, um.
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Procurei recentemente o nome do Paulo Henrique na internet e encontrei: ele respondeu meu e-mail no dia seguinte. O Paulo é formado em Engenharia Elétrica; é casado com Ana Lúcia:, tem dois filhos (o Leonardo de quatro anos e o Thiago de dois) e é proprietário de uma escola de idiomas em Bauru. Lembramos juntos com saudades daqueles tempos e ajustamos de nos encontrarmos em breve.